20 de mai. de 2011

Gerações

Por Taís Machado*

"Eu acreditei em muitas coisas: que o bem venceria o mal; acreditei em Freud e na psicanálise, que se eu tivesse coragem, eu chegaria ao autoconhecimento e seria feliz; acreditei em Marx e na revolução, que se eu tivesse bastante coragem eu poderia ajudar o mundo a alcançar a justiça social. Acreditei também em muitas outras coisas: na dignidade, na honra, na inocência, na sabedoria, na razão, na intuição, na ciência e na arte, sobretudo, no amor eterno, único. [...] Essa é a minha história e a minha geração. Nós somos aqueles que viveram e sobreviveram a muitos ideais, aqueles que viram a falência das soluções libertadoras, aquelas que prometiam resolver o enigma da existência humana. Não estou me queixando. É melhor ter ideais, nem que seja para perdê-los e sair procurando outros".

Assim começa a introdução do filme Juventude do Domingos Oliveira (1). O filme é interessante; além disso, aprecio os filmes desse ator e diretor carioca, em pleno exercício da profissão e vocação, aos 75 anos de idade. Contudo, por agora não comentarei a respeito desse filme, apenas sobre sua bela introdução. Trata-se de alguém que sabe retratar um tanto da realidade. 

Para além das decepções da vida, das mudanças de rumo, de crenças, de nostalgias, gostaria de propor que refletíssemos mais e melhor sobre a juventude. É claro que alguns irão alegar que a própria expressão “juventude” é um equívoco para quem deseja pensar a respeito, uma vez que mais legítimo e coerente seria dizer "juventudes", devido às várias “tribos” atuais, os diferentes contextos sociais e econômicos, e por aí vai. Entretanto, como se trata mais de uma provocação a fim de que esse tema seja aprofundado, ou simplesmente um convite para pensarmos de novo, além das limitações de tempo e espaço, tão somente compartilharei algumas leituras e considerações recentes. 

O professor e editor londrino, Tony Judt, em seu último livro, disse algo que me chamou a atenção: "Por trinta anos meus alunos têm reclamado que ‘para você foi fácil’: sua geração tinha ideais e ideias, acreditava em alguma coisa e conseguiu mudar a situação. 'Nós' (os nascidos nas décadas de 1980, 1990 e 2000) não tivemos nada. [...] A última vez que um grupo de jovens expressou comparável desânimo pelo vazio de suas vidas e da frustrante falta de sentido do mundo foi nos anos 1920: não por acaso os historiadores falam de uma 'geração perdida'." (2) 

Como caracterizamos, rotulamos, compreendemos e nos expressamos a respeito da juventude atual? Quais as queixas, os dilemas e inquietações que trazem? Quem tem ouvido realmente os jovens? Quem tem se ocupado de traduzi-los para outras gerações? Encontro, ouço e vejo com frequência pais, pastores, professores e chefes intrigados, enfurecidos, desnorteados, tentando entender como melhor tratá-los, como estimulá-los, como lidar de maneira respeitosa e encorajadora com "esses jovens de hoje". 

É bom lembrar o que já dizia Henri Nouwen em 1979: "A geração futura está procurando desesperadamente uma visão, um ideal ao qual se dedicar – uma fé, se você preferir. Mas sua linguagem drástica é muitas vezes mal entendida e considerada mais uma ameaça ou convicção impertinente que um processo para caminhos alternativos de vida" (3). 

Por esses dias também o jornalista Michael Kepp ponderou: "Os jovens de hoje não são aventureiros como no início dos anos 70. Era uma época em que os jovens faziam viagens sem destino, fossem psicodélicas ou quilométricas, para abrir as portas da percepção e da autodescoberta. Hoje, poucos jovens fazem essas odisseias. Uma economia global instável e mais competitiva acelerou as tentativas de entrar no mercado de trabalho. Muitos conhecem o terno e a gravata antes de conhecerem a si mesmos" (4). 

Numa era de velocidade para qual os jovens têm sido cada vez mais empurrados, ou ao menos, tem aceitado, tal realidade lesou um processo necessário. As adaptações num cotidiano exigente têm sido feitas, ou tentadas. Nem sempre são bem-sucedidos, mas muitos são esforçados e perseverantes. O sentimento de aprovação ainda é algo forte nas mobilizações humanas. Porém, o processo de conhecerem melhor a si mesmos, suas dúvidas, sua fé ou a falta dela, tem sido encurtado. O tempo de reflexão parece diminuir, as demandas pressionam de todos os lados; então, decidem se dedicar ao que a maioria se dedica: o esboço de um projeto de sucesso individual. E por sucesso entende-se fama, dinheiro, poder e as decorrências disso, que a maioria considera apenas positivas. 

Vivendo na sociedade do espetáculo é fácil observar nas redes digitais o que nossos jovens são capazes de postar a fim de obter alguns minutos de fama. Mas, mais do que isso, a maneira de se vestirem, e tudo mais o que consomem, e também o que falam e fazem apontam para o desejo narcísico de aparecerem o tempo todo, de alcançarem um espaço no mundo competitivo de imagens e velocidade. É bem verdade que outros, mais tímidos, conscientes, ou discretos, não se rendem facilmente às modas, buscam um estilo próprio, alternativo, mas pagam um preço por isso, e muitos desses acabam numa apatia profunda, embora ainda também discreta. A arena é cruel e a arquibancada é depressiva. 

A chamada geração Y (composta por indivíduos que nasceram entre 1980 e 2000), segundo duas psicólogas com vasta experiência e acompanhamento de jovens no mercado de trabalho, são “pessoas que foram criadas com uma grande base de autoestima. A elas era dito que podiam ser e fazer o que quisessem, o que, por sua vez, gerou uma população consciente de seus pontos fortes”; por outro lado, “várias consequências significativas decorrentes do exagero de autoestima estão impactando o mercado de trabalho atual e frustrando gerentes do mundo inteiro” (5). Ou seja, se por um lado, esses jovens com autoestima alta costumam ser produtivos no trabalho e ter mais criatividade; de outro, alimentam expectativas pouco realistas, não aceitam feedback, culpam os outros por seus erros e tem dificuldade de ver as coisas em perspectiva. Claro, trata-se de uma generalização e um recorte; além de outra cultura, contudo, em tempos de globalização, tudo vai ficando muito parecido, e ouvir, prestar atenção, interagir tem sido um desafio constante. 

A one-Hope, entidade americana voltada para a infância e juventude, elaborou um interessante estudo sobre o que pensam os adolescentes acerca da influência da religião em sua vida. A pesquisa envolveu 5 mil jovens com idades entre 13 e 18 anos: 62% consideram que a verdade “é relativa”; 59% consideram que a Bíblia tem “pouca ou nenhuma” influência sobre o que pensam e fazem; 57% acreditam que podem conquistar a vida eterna apenas sendo “boas pessoas” e realizando o bem ao próximo (6). Que implicações terão na sociedade gente com tal mentalidade? O que podemos fazer e aprender? 

Há muito a refletir. Não acredito em receitas mágicas, em regrinhas que arrancam desconfortos. Formas sutis de ditaduras e seus resquícios não farão bem também a essa nova geração. Entretanto, gostaria de destacar a importância da comunidade. Vivemos tempos em que as famílias no geral encontram-se um tanto desestruturadas, algumas esfaceladas, ou simplesmente, como preferem outros, são “novas famílias” (com formações das mais ecléticas, com variadas e novas consequências, que ainda não vemos bem, entender então...). Parece que a referência e crivo acaba sendo o “eu”. “Eu quero”, “eu preciso”, “eu desejo”, e assim se constrói um estilo próprio tão parecido com os demais. Cada um buscando o que considera seu e o melhor para si. O conceito de comunidade e o desafio de fazer parte de algo maior vai ficando estranho para boa parte dos jovens. Não sejamos injustos, muito disso tudo somos todos nós e não apenas a atual juventude, mas, ao que tudo indica, há uma tendência de neles haver uma exacerbação disso, pois todo o contexto facilita e sugere. 

Descobrir que há algo maior do que o "eu", que não precisamos ser escravos desse "eu", e que Cristo Jesus nos oferece a oportunidade e privilégio de participarmos de algo maior e com todo sentido, pode fazer toda a diferença para essa juventude. Lembro-me aqui das palavras do René Padilla: "O chamado do Senhor não é para a realização pessoal, a felicidade individual ou a mera satisfação de necessidades religiosas: é um chamado para unir-nos a ele no cumprimento do propósito de Deus para a vida humana, para a história e para a criação" (7). Assim, termos igrejas saudáveis que nos ajudem a conhecer mais de Deus e seu reino, e nos ajudem a crescer no compromisso com o Senhor da igreja e da história, pode ser fundamental para os jovens de hoje.

*Tais Machado é psicóloga, leciona em vários seminários cristãos e dedica-se também a escrever como parte do ensino, cuidado com as pessoas e espiritualidade.

Texto retirado do site da revista Ultimato e originalmente publicado no site Novos Diálogos.

Notas 
(1) "Juventude" – roteiro e direção de Domingos Oliveira. Com Paulo José, Aderbal Freire Filho e Domingos Oliveira. Produção: Teatro Iluste e Forte Filmes. 2008. 
(2) JUDT, Tony. O Mal Ronda a Terra. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2011. 
(3) NOUWEN, Henri. O Sofrimento que Cura. São Paulo, Editora Paulinas, 2001. 
(4) Michael Kepp, Folha de S.Paulo, 03/05/2011 
(5) LIPKIN, Nicole; PERRYMORE, April. A Geração Y no Trabalho. Rio de Janeiro, Elsevier, 2010. 
(6) Revista Cristianismo Hoje – abril/maio de 2011. 
(7) PADILLA, René C. O que é Missão Integral? Viçosa/MG, Ed. Ultimato, 2009. 

22 de abr. de 2011

Alguns minutos de paixão na sua sexta-feira




Amigos e irmãos,

judeus e cristãos no mundo inteiro devem estar celebrando e revivendo a Páscoa nestes dias. Contudo, há diferenças importantes: entre os dias 18 e 26 de abril os judeus estão relembrando a fuga de uma vida de escravidão no Egito e o início da migração para a Palestina. A cristandade, entre 22 e 24 do mesmo mês, está revivendo as últimas horas, o assassinato e o sepultamento de um homem que não tinha crimes ou pecados. Para depois seguir celebrando a sua ressurreição, e assim, reconhecer que ele era realmente quem dizia ser; Jesus, o messias, Deus na forma humana.

Cremos que a sexta-feira da Páscoa cristã deve ser dia de vergonha para toda a humanidade e profunda reflexão para os cristãos em todo o mundo. Vergonha porque podemos pensar que não há muita esperança para nós humanos em nós mesmos. Somos criativos para fazer o mal. Reflexão porque depois de mais de 2000 anos o injusto assassinato do nosso Senhor pode deixar de nos chocar e comover para se tornar apenas uma história religiosa antiga.

Nesta sexta-feira estamos enviando a você e sua família um vídeo feito pela igreja Mars Hill, em Seattle (WA), sobre o real valor da sexta-feria da paixão. Você deverá perceber que o vídeo propositadamente termina sem o desfecho que você conhece. Reserve alguns minutos, reuna a família em volta do computador hoje e assistam juntos ao vídeo da 'Sexta-feira santa'. Relembre Pedro, relembre Judas, relembre Pilatos, Herodes, os ladrões, os religiosos do templo, o sumo-sacedorte, os guardas romanos... Perceba que em alguns momentos eles se parecem contigo, fazendo coisas que você também poderia fazer. Um sentimento de culpa poderá surgir, mas, essa mesma culpa, não caiu sobre nós. Caiu sobre os ossos e a pele de um inocente.

O espancamento e o assassinato do nosso Senhor deve continuar sendo noticiado até a Sua volta. No entanto, esses atos não foram nada suaves, mas sim, carregaram toda a sorte de violência que o homem carrega em si. Por isso, desaconselhamos que crianças muito novas assistam ao vídeo.

Uma boa e reflexiva sexta-feira da paixão para você,

Mark, Helena, André e Juliana.

18 de fev. de 2011

Pr. Valdemar Figueredo na IBMT

Já conhecido de muitos, amigo pessoal de alguns, o Pr. Valdemar Figueredo - indicado pela Comissão de Sucessão Pastoral - esteve com grupos da IBMT na semana que passou e na igreja pregando nos dois cultos de domingo. Para o próximo sábado foi marcado um encontro entre ele e os jovens e adolescentes da igreja. Todos estão convidados a conhecer um pouco mais o homem que a CSP deseja ver à frente da IBMT. Será uma conversa informal, mas você pode levar suas perguntas se assim desejar. Vamos ter pizzas e refrigerantes, mas a entrada é totalmente franca.

Jovens e adolescentes, membros da igreja, irão participar da votação sobre o possível convite ao Pr. Valdemar para pastorear a IBMT e só têm a ganhar vindo conversar com ele. Você ganha subsídios para sua decisão e mais empatia e intimidade com nosso convidado.

Dia 19/02, na Rua Conde de Bonfim, 789, às 18h.

Pr. Valdemar Figueredo Filho é casado com a Patrícia, com quem tem dois filhos. Estudou teologia no STBSB e graduou-se em Ciências Sociais na UERJ. Mestre e doutor em Ciência Política, pelo IUPERJ. Pastoreou a Igreja Batista de Campo Grande (ES), a Igreja Batista da Esperança (RJ) e hoje está à frente da Igreja Batista Central de Niterói. É também professor universitário na Universidade Federal Fluminense. Sujeito de sorriso largo e que aparenta ser gente boa pra caramba! Venha connhecê-lo mais.

Até lá.

Min. de Jovens
e
Min. de Adolescentes

23 de out. de 2010

Igreja: uma pequena porção do Reino, ONDE DEUS ME PÔS

Manifesto pela participação de cada crente na sua igreja local - uma teologia neotestamentária

1. A Igreja é formada por pessoas que custaram caríssimo para Deus (I Co 6:10).

2. A Igreja pertence a Jesus, o qual prometeu que nem mesmo o inferno poderia derrotá-la (Mt 16:18).

3. A crença nas duas proposições acima nos impede de ter a igreja como um clube, ao qual nos filiamos ou nos desligamos, frequentamos ou nos ausentamos, por nossa mera vontade ou por quaisquer outras adversidades (Hb 10:23-25).

4. A Igreja com "I" maiúsculo, aquela feita de gente, é muito maior que a igreja, com "i" minúsculo, aquela desse mundo, com suas tradições e diferenças doutrinárias e denominacionais. Importante mesmo é a doutrina do Cristo - profeta, sacerdote, Rei e servo - e estar unido a ele por meio do convívio real com outros crentes; e isso acontece na igreja local (Col 2:16-19).

5. É na Igreja que se aprende a interceder com esperança pela redenção de um mundo ímpio e caído (I Tim 2:1;8).

6. É na Igreja que encontramos a melhor e primeira oportunidade para as boas obras, para a solidariedade e para aprender a boa administração da caridade. É ali que, quando necessitados, nós encontraremos amigos mais chegados que irmãos, gente de coração livre e tocado por Deus para nos abençoar (I Tim 5:1-16; 6:17-18).

7. Servir na Igreja não é exatamente um trabalho, mas uma oportunidade de ser transformado e abençoado por Deus (I Tim 3:1;13).

8. Depois da família, a igreja local é o lugar de transmissão da fé (II Tim 2:2-9).

9. Igreja é lugar de fazer grandes e duradouras amizades (Rm 16:3-16).

10. Nenhuma outra experiência social humana é tão transcultural  e includente quanto a Igreja. Lugar onde os autossuficientes não têm vez, onde ninguém é senhor senão o SENHOR, lugar onde só há um cabeça (e não é nenhum de nós). É o primeiro lugar da entrega dos dons, e onde eles devem ser usados em prol da própria Igreja (I Co 12:12-31).

É assim que crêem a maioria dos cristãos por toda a face da Terra há centenas de anos. Sabemos que crer e executar muitas vezes são coisas diferentes. Mas, não queremos permanecer incoerentes. SENHOR, perdoa-nos e transforma-nos!

Que todos os cristãos que lerem esse manifesto pensem com mais carinho na sua comunidade local. Ela não é um prédio, ela não é uma diretoria, ela não é um símbolo, mas ela é um corpo; e você está nele. A teologia do "sou cristão sozinho na minha casa" não é possível de se verificar no Novo Testamento. Na mais severa crise, ainda assim, o NT estimula o cristão a suportar e continuar (II Tim 2:14-26).

Aos cristãos da IBMT,

amanhã, 24/10/2010, é dia de envolver-se com sua igreja local, dia de ser corpo, dia de usar dons, dia de servir, dia de administrar com sabedoria e dia de se unir para louvar. Isso não é um favor, mas um privilégio da vida cristã.

Culto ao SENHOR e Assembleia de sucessão pastoral (9h).

6 de set. de 2010

Varão e varoa, estamos no século XXI !!!

Por Jonas Madureira*

"Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir." (Lucas 15.1)

É inegável que o cristianismo contemporâneo vive a crise da relevância. Os novos críticos do cristianismo não se cansam de dizer que o discurso dos cristãos cheira naftalina, é tão antiquado, fora de moda e irrelevante. Para ilustrar esse fato, lembro-me de que, há poucos dias, um colega da USP, sabendo que sou cristão, se aproximou de mim e, sem rodeios, perguntou-me: “Por que muitos evangélicos falam tão esquisito? Eles chamam uns aos outros de varão e varoa! Abusam dos arcaísmos! Usam expressões tão ultrapassadas que às vezes me sinto nos dias de Olavo Bilac!” Dureza, não?! Expliquei que muitas das versões bíblicas que as pessoas leem são muito antigas, e, por esse motivo, acabam trazendo o vocabulário delas para o dia a dia. “Que bizarro!”, disse meu colega. E incomodado com isso, perguntei: “Por que bizarro?”. Ele prontamente me respondeu: “Porque isso assusta qualquer um! É uma linguagem muito distante da realidade!”. Nessa hora, infelizmente, tive que concordar com ele. Nossa linguagem, às vezes, é tão descontextualizada que, em vez de atrair, assusta os publicanos e pecadores de nossos dias.

O que acho mais interessante no texto de Lucas 15 é o fato de que os publicanos e pecadores não se aproximaram de Jesus para pedir um milagre, uma bênção. Pelo contrário, se aproximaram dele só para ouvi-lo. Isso aconteceu porque a pregação de Jesus era empolgante, o Mestre era verdadeiramente relevante. Veja a bela imagem que Lucas nos oferece: o Filho de Deus, sentado à mesa com publicanos e pecadores, completamente atraídos pelo seu discurso. Ou seja, Lucas mostrou que Jesus era interessante não apenas por causa dos milagres que fazia, mas principalmente por causa de seu pensamento, de sua capacidade de ler o coração dos homens e de expor os desígnios de Deus, com ousadia, sabedoria e relevância.

Ouvindo algumas pregações aqui e acolá, em canais de TV e em igrejas, percebo que muitos dos discursos e pregações de nossos dias estão muito distantes de ser comparados às pregações empolgantes de Jesus. Acredito que uma das razões seja a nossa incapacidade de ler nosso tempo, agravada pela pobreza de nossa leitura dos desígnios de Deus, expressos nas Escrituras. Quando digo “ler nosso tempo”, digo “ler as pessoas de nossos dias”. Jesus entendia o homem de seu tempo como ninguém. Ele compreendia as questões que o homem de seu tempo fazia e, por isso, respondia de forma relevante aos publicanos e pecadores de seu tempo.

Em contrapartida, nossa leitura do varão hodierno — ops! do homem de hoje! — é vergonhosa. Não entendemos seus pensamentos, não entendemos suas questões. Às vezes, tenho a impressão de que a maioria de nós está falando para homens do século XIX, e não só com uma linguagem oitocentista, mas — o que é pior ainda — usando uma lógica e um tipo de reflexão e postura intelectual que é típico do universo espiritual oitocentista.

A verdade é que alguns sermões de hoje se tornam irrelevantes porque apenas respondem às perguntas que o homem do século XIX fazia. São sermões tão distantes do século XXI, que dão sono! Cá para nós, às vezes me pergunto se isso acontece por causa do delay de publicações das obras teológicas oitocentistas, que são publicadas hoje em dia como “grandes lançamentos do ano”. Sinceramente, não sei. O que sei é que, se queremos proclamar o reino de Deus para o nosso tempo, temos de nos livrar de nossas lentes oitocentistas. Precisamos ler o homem de nossos dias, com lentes apropriadas para o século XXI.

O homem de hoje é um homem sem transcendente, ou melhor, um homem vislumbrado com o imanente, que passa a ser tomado como se fosse transcendente. Em outras palavras, alguém que trocou a adoração a Deus pela veneração ao carro do ano, ao último modelo de celular, de notebook, de TV e por aí vai. Por isso, as megaigrejas estão tão cheias. E garanto que não é pela relevância do discurso, mas pela exploração da angústia do homem moderno. Este vai à igreja não mais para simplesmente adorar, mas para clamar a Deus por um carro novo, uma casa maior, mais dinheiro, mais sucesso, mais poder. A tara por essas bênçãos materiais mostra o quanto somos niilistas, vazios, sem um sentido ulterior para vida, que seja superior a tudo o que está preso ao tempo e ao espaço.

Não precisamos de sermões que alimentem nossa angústia niilista. Precisamos de sermões que nos conscientizem de nossa real situação. Sermões que revelem as novas faces de nossas depravações e desesperos. Sermões que sejam resultado de uma exegese bíblica cuidadosa e contextualizada, e, ao mesmo tempo, conscientes de que nossa inteligência e compreensão devem ser submetidas à luz do Espírito, o único que nos permite ver o Jesus supracultural, supratemporal, preexistente, Filho de Deus, Senhor do tempo, da história, da terra e do céu. Sermões que nos sirvam como espelhos para mostrar a face sofrida e angustiada de nosso coração, tão longe da busca pelo transcendente e tão entregue à busca exacerbada por bens transitórios. Só assim haverá conversão genuína, adoração verdadeira, pregação relevante. Só assim publicanos e pecadores de nosso tempo deixarão de se assustar com esse nosso esquisito jeito oitocentista de ser, e se aproximarão de nós para conhecer o Jesus do século XXI, que, paradoxalmente, em nada deve ser menos atraente do que o Jesus do século I.

* Aos 33 anos, Jonas Madureira é bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro em São Paulo; bacharel e mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorando em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Titular de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea e Filosofia do Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro, do Seminário Teológico Bethesda e do Seminário Teológico Servo de Cristo. Autor do livro "Filosofia" do Curso Vida Nova de Teologia Básica publicado por Edições Vida Nova. Trabalha como editor assistente na Edições Vida Nova e é pastor da Igreja Fonte de Sicar (http://fontedesicar.ning.com/)

Texto originalmente publicado no blog do autor: http://jonasmadureira.blogspot.com/

26 de ago. de 2010

Recebendo e conhecendo o Pr. Marcelo...

Queridos e queridas,

temos compromisso e uma agenda cheia a partir de hoje. Como quase todos devem saber, nestes dias o Pr. Marcelo Petrucci, pastor da PIB de Mantena (MG), sua esposa e suas duas filhas estarão presentes nas próximas atividades da IBMT a convite da nossa comissão de sucessão pastoral.

Ficamos muito felizes ao receber a notícia de que o próprio pastor desejou ter um momento com a juventude da IBMT. Mas, estamos convidando todos os jovens a participarem do máximo de atividades que puderem, a fim de conhecermos o Pr. Marcelo, ouvirmos o que ele tem a dizer e, assim, termos sabedoria para logo em breve respondermos como igreja se desejamos convidá-lo para estar à frente desta comunidade.

Converse com os amigos e irmãos e convide-os para estar conosco. Esses primeiros contatos podem ser o início de um bom relacionamento. Deus certamente tem bons planos!

Jovens, segue a nossa agenda com a presença do pastor:

26/ago - Quinta-feira (20h) - Culto de Oração

28/ago - Sábado (7h30 saída da igreja) - Passeio da IBMT ao sítio da PIB de Irajá (Xerém)

28/ago - Sábado (20h) - Encontro dos jovens com Pr. Marcelo (IBMT)

Teremos uma conversa agradável e informal com o Pr. Marcelo Petrucci. Iremos lanchar com ele (pizzas e refrigerante) e não haverá qualquer cobrança dos presentes. Venham à vontade. Alguns já estão ajudando na organização e com doação de alguns itens; pedimos apenas que, quem quiser e puder, traga um refrigerante gelado.

29/ago - Domingo (9h) - Culto matutino

29/ago - Domingo (10h45) - EBD (O crente e os juramentos -  Mt 5:33-36)

29/ago - Domingo (19h) - Culto noturno



18 de jun. de 2010

Saramago morre, e agora, onde ele está?

Morreu na Espanha o escritor português José Saramago. Famoso por ter ganho o prêmio Nobel de Literatura (1998), mas também por ser um inveterado defensor do comunismo e ácido crítico das religiões. Algumas de suas muitas frases relembradas no dia de sua morte pela imprensa no mundo todo:

"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."

"Deus, o diabo, o bom, o ruim, tudo está na nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não percebemos que, tendo inventado Deus, imediatamente nos escravizamos a ele."

"Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo."

Aproveito para republicar abaixo um post que escrevi no dia 29 de novembro de 2008, quando Saramago foi sabatinado pela Folha de S.Paulo


Ensaio sobre a cegueira




"Você diz: ‘Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada’. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego, e que está nu." (Judas 3:17)

Me pergunto: como pode alguém que com maestria escreveu sobre a depravação moral humana, caída e em estado de cegueira, ser tão materialista e só crer no que vê? Ousadamente, o português José Saramago questiona, durante sabatina realizada pelo jornal Folha de S.Paulo: "Precisamos de Deus? Mas precisamos de Deus pra que?
Pobre Saramago; tão cego quanto os personagens de seu famoso romance. Não enxerga que tudo há de passar. Que sua obra passará, que os médicos passarão, que sua esposa passará e que ele próprio, com seu corpo que ele tanto valoriza, passará (visto sua senilidade, pode não demorar muito). Não enxerga que ele não pode criar-se a si mesmo, que é perecível e que quando ao pó voltar o amor de Deus pela humanidade permenecerá. Porque só Yahweh era, é e há de ser.
Miserável, digno de compaixão, pobre, cego e nu, Saramago!



10 de jun. de 2010

Desenvolvimento sustentável


No final de um livro de belíssima encadernação em tecido que comprei há pouco (FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL - Celso Furtado) está escrito assim:

"... é a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do papel deste livro provém de florestas de origem controlada e que foram gerenciadas de maneira ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável"

E tem gente que acha que movimento ambientalista é apenas uma ideológica defesa do mico-leão-dourado, da tartaruga marinha ou das arvorezinhas.

Meio ambiente + emprego + educação + justiça social + renda + políticas públicas + rentabilidade às empresas...
... tudo junto em prol do mundo criado para o homem e do homem criado para Deus, que criou o mundo.

Há décadas o movimento verde é relevante e inserido na política europeia em busca da construção de espaços mais conscientes e justos. No Brasil, dos anos 80 para cá ele conseguiu juntar uma meia-dúzia de esquerdistas, uns libertários maconheiros, alguns ambientalistas de fato e, mais recentemente, outros "neodireitistas".

2010, ano de eleições: tenho esperança de que as coisas estão mudando positivamente por essas bandas do pensamento do desenvolvimento sustentável, mas, não desejo ver tão importante expressão virando grife e morrendo em camisetas da Osklen, como aconteceu com o Protocolo de Kyoto.

Deus ama a justiça e odeia a injustiça, seja na economia, na segurança pública, na política, na ecologia, nas ciências, na sociedade, nas cidades, no campo...

2 de jun. de 2010

Texto nosso na ULTIMATO de maio/junho

No final de março tive o prazer de receber um convite do pessoal da revista Ultimato para escrever sobre a redenção das sete artes para a coluna Altos Papos da edição de maio-junho. Parece que o texto foi publicado por ocasião do lançamento do livro "A arte e a Bíblia" (Francis Schaeffer). O Rodolfo Amorim, que esteve no nosso último retiro, escreveu na mesma edição uma apresentação sobre esse livro do Schaeffer. Honra maior tive depois de enviar o texto para eles e receber a notícia de que o texto fora aprovado e elogiado pelo Rev. Elben M. Lenz César, diretor e responsável pela Ultimato (e um vovô muito simpatico). Inclusive, ele me mandou, por e-mail, um incentivo e um trecho do livro "Surpreendido pela esperança" (N.T. Wright).

Agradeço à Tábata Mori, companheira de estadias no L`Abri (BH), que me fez o convite, ao Rev. Elben e ao pessoal da revista, que me confiaram a responsabilidade de escrever o texto de apresentação do tema das 7 artes (há um texto para cada arte na coluna online Outros Papos). Salvo um errinho de concordância logo na primeira linha, foi tudo bem legal.

Fico grato a Deus de me dar a oportunidade de escrever para a revista que sou assinante e que conta com nomes como Ricardo Barbosa, Ricardo Quadros, Ronaldo Lidório, Robinson Cavalcanti e outros... Divido com vocês o texto (clicando na imagem a seguir você vê como saiu na revista impressa):


Perdida no caminho
André Luiz Freitas

Onde quer que tenhamos deixamos cair nossa criatividade, Cristo quer recuperá-la para o Pai. Podemos estar certos de que, quando Paulo disse aos colossenses (Cl 1.20) que, em Cristo, Deus estava reconciliando com ele todas as coisas, eram “todas” as coisas mesmo -- incluindo as artes. Cristãos de várias gerações têm sido constrangidos com o dilema do que podem ou não realizar, apoiar ou consumir nos campos da música, das artes plásticas (pintura, escultura), do teatro, da dança, da literatura e do cinema. Diante da dúvida honesta, muitos -- dos legalistas aos piedosos -- preferem lançar as artes num limbo de indefinição ou até no inferno. Não significa que deixamos de cantar, dançar, encenar ou escrever. Porém, restringimos tudo à esfera da igreja, aos temas sacros e ao objetivo da proclamação literal do evangelho. Quem nunca ouviu uma música feia ou assistiu a uma peça cafona na igreja e abriu mão da beleza sob a alegação de que essa arte eclesiástica não precisa necessariamente ser bela, mas cumprir a função de falar de Jesus? De fato, o cristianismo contemporâneo divorciou as artes da beleza, e esta da adoração. A ideia de que as expressões artísticas podem simplesmente refletir e adorar a um Deus que é belo e adorável foi perdida. Paulo nos dá uma pista de onde caiu nossa dimensão estética da vida: “Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: ‘Não manuseie!’, ‘Não prove!’, ‘Não toque!’?” (Cl 2.20-21).

Uma hermenêutica religiosa da Bíblia nos faz parafrasear o apóstolo: “não ouça isso”, “não leia aquilo”, “não assista àquilo outro”. Elaboramos mandamentos humanos com o -- até certo ponto legítimo -- medo de adorar ao diabo ou construir ídolos. Perdemos as artes no caminho da religiosidade. Porém, parece que essa geração começa a gritar, embora espaçadamente, que a beleza é de Deus, que tudo que é bom e admirável pertence à esfera da sua criação. Muitos já não concebem um céu onde a única expressão das artes será um grande coro cantando as últimas músicas do “mercado gospel”. Será muito bom quando uma cosmovisão cristã tomar as rédeas das sete artes e, mesmo em discursos indiretos ou subliminares, enxergarmos a beleza e a essência do cristianismo. Poderemos ler poemas, cantar músicas, admirar quadros, assistir peças e dizer: “Por trás disso há um cristão e os pressupostos das sagradas escrituras”. Deus é o Senhor das artes e o criador das habilidades artísticas -- basta ler Êxodo 31.1-5:

Disse então o Senhor a Moisés: ‘Eu escolhi Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal’.

As artes nunca foram um problema em si na relação do homem com o seu Criador. Quem se divorciou de Deus foi o homem e o seu coração tornou-se mau e autossuficiente. Com isso, a expressão criativa que brota de um coração mau tornou-se também anti-Deus. Francis Schaeffer já havia diagnosticado que o divórcio entre a cristandade e a cultura tinha sido uma tragédia na Europa e na América do Norte do século 20. Esse mal avançou para o hemisfério sul e por aqui as artes também se tornaram um monopólio secular. A conservadora separação entre ambiente sagrado e profano pôs as artes para fora da igreja e muitas pessoas foram atrás delas, ou seja, afastaram-se de uma instituição incapaz de dialogar com a cultura. Passou da hora de os cristãos vislumbrarem nas artes o triunfo de Cristo sobre o pecado, tornando-as de novo obras de gente que vê beleza e esperança na vida. Louvado seja o Jesus que volta no caminho para recuperar o que a ele pertence e que displicentemente deixamos ficar para trás.


• André Luiz de A. Freitas
, 26 anos, é jornalista e líder de jovens da Igreja Batista Memorial da Tijuca, no Rio de Janeiro.