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23 de out. de 2010

Igreja: uma pequena porção do Reino, ONDE DEUS ME PÔS

Manifesto pela participação de cada crente na sua igreja local - uma teologia neotestamentária

1. A Igreja é formada por pessoas que custaram caríssimo para Deus (I Co 6:10).

2. A Igreja pertence a Jesus, o qual prometeu que nem mesmo o inferno poderia derrotá-la (Mt 16:18).

3. A crença nas duas proposições acima nos impede de ter a igreja como um clube, ao qual nos filiamos ou nos desligamos, frequentamos ou nos ausentamos, por nossa mera vontade ou por quaisquer outras adversidades (Hb 10:23-25).

4. A Igreja com "I" maiúsculo, aquela feita de gente, é muito maior que a igreja, com "i" minúsculo, aquela desse mundo, com suas tradições e diferenças doutrinárias e denominacionais. Importante mesmo é a doutrina do Cristo - profeta, sacerdote, Rei e servo - e estar unido a ele por meio do convívio real com outros crentes; e isso acontece na igreja local (Col 2:16-19).

5. É na Igreja que se aprende a interceder com esperança pela redenção de um mundo ímpio e caído (I Tim 2:1;8).

6. É na Igreja que encontramos a melhor e primeira oportunidade para as boas obras, para a solidariedade e para aprender a boa administração da caridade. É ali que, quando necessitados, nós encontraremos amigos mais chegados que irmãos, gente de coração livre e tocado por Deus para nos abençoar (I Tim 5:1-16; 6:17-18).

7. Servir na Igreja não é exatamente um trabalho, mas uma oportunidade de ser transformado e abençoado por Deus (I Tim 3:1;13).

8. Depois da família, a igreja local é o lugar de transmissão da fé (II Tim 2:2-9).

9. Igreja é lugar de fazer grandes e duradouras amizades (Rm 16:3-16).

10. Nenhuma outra experiência social humana é tão transcultural  e includente quanto a Igreja. Lugar onde os autossuficientes não têm vez, onde ninguém é senhor senão o SENHOR, lugar onde só há um cabeça (e não é nenhum de nós). É o primeiro lugar da entrega dos dons, e onde eles devem ser usados em prol da própria Igreja (I Co 12:12-31).

É assim que crêem a maioria dos cristãos por toda a face da Terra há centenas de anos. Sabemos que crer e executar muitas vezes são coisas diferentes. Mas, não queremos permanecer incoerentes. SENHOR, perdoa-nos e transforma-nos!

Que todos os cristãos que lerem esse manifesto pensem com mais carinho na sua comunidade local. Ela não é um prédio, ela não é uma diretoria, ela não é um símbolo, mas ela é um corpo; e você está nele. A teologia do "sou cristão sozinho na minha casa" não é possível de se verificar no Novo Testamento. Na mais severa crise, ainda assim, o NT estimula o cristão a suportar e continuar (II Tim 2:14-26).

Aos cristãos da IBMT,

amanhã, 24/10/2010, é dia de envolver-se com sua igreja local, dia de ser corpo, dia de usar dons, dia de servir, dia de administrar com sabedoria e dia de se unir para louvar. Isso não é um favor, mas um privilégio da vida cristã.

Culto ao SENHOR e Assembleia de sucessão pastoral (9h).

2 de jun. de 2010

Texto nosso na ULTIMATO de maio/junho

No final de março tive o prazer de receber um convite do pessoal da revista Ultimato para escrever sobre a redenção das sete artes para a coluna Altos Papos da edição de maio-junho. Parece que o texto foi publicado por ocasião do lançamento do livro "A arte e a Bíblia" (Francis Schaeffer). O Rodolfo Amorim, que esteve no nosso último retiro, escreveu na mesma edição uma apresentação sobre esse livro do Schaeffer. Honra maior tive depois de enviar o texto para eles e receber a notícia de que o texto fora aprovado e elogiado pelo Rev. Elben M. Lenz César, diretor e responsável pela Ultimato (e um vovô muito simpatico). Inclusive, ele me mandou, por e-mail, um incentivo e um trecho do livro "Surpreendido pela esperança" (N.T. Wright).

Agradeço à Tábata Mori, companheira de estadias no L`Abri (BH), que me fez o convite, ao Rev. Elben e ao pessoal da revista, que me confiaram a responsabilidade de escrever o texto de apresentação do tema das 7 artes (há um texto para cada arte na coluna online Outros Papos). Salvo um errinho de concordância logo na primeira linha, foi tudo bem legal.

Fico grato a Deus de me dar a oportunidade de escrever para a revista que sou assinante e que conta com nomes como Ricardo Barbosa, Ricardo Quadros, Ronaldo Lidório, Robinson Cavalcanti e outros... Divido com vocês o texto (clicando na imagem a seguir você vê como saiu na revista impressa):


Perdida no caminho
André Luiz Freitas

Onde quer que tenhamos deixamos cair nossa criatividade, Cristo quer recuperá-la para o Pai. Podemos estar certos de que, quando Paulo disse aos colossenses (Cl 1.20) que, em Cristo, Deus estava reconciliando com ele todas as coisas, eram “todas” as coisas mesmo -- incluindo as artes. Cristãos de várias gerações têm sido constrangidos com o dilema do que podem ou não realizar, apoiar ou consumir nos campos da música, das artes plásticas (pintura, escultura), do teatro, da dança, da literatura e do cinema. Diante da dúvida honesta, muitos -- dos legalistas aos piedosos -- preferem lançar as artes num limbo de indefinição ou até no inferno. Não significa que deixamos de cantar, dançar, encenar ou escrever. Porém, restringimos tudo à esfera da igreja, aos temas sacros e ao objetivo da proclamação literal do evangelho. Quem nunca ouviu uma música feia ou assistiu a uma peça cafona na igreja e abriu mão da beleza sob a alegação de que essa arte eclesiástica não precisa necessariamente ser bela, mas cumprir a função de falar de Jesus? De fato, o cristianismo contemporâneo divorciou as artes da beleza, e esta da adoração. A ideia de que as expressões artísticas podem simplesmente refletir e adorar a um Deus que é belo e adorável foi perdida. Paulo nos dá uma pista de onde caiu nossa dimensão estética da vida: “Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: ‘Não manuseie!’, ‘Não prove!’, ‘Não toque!’?” (Cl 2.20-21).

Uma hermenêutica religiosa da Bíblia nos faz parafrasear o apóstolo: “não ouça isso”, “não leia aquilo”, “não assista àquilo outro”. Elaboramos mandamentos humanos com o -- até certo ponto legítimo -- medo de adorar ao diabo ou construir ídolos. Perdemos as artes no caminho da religiosidade. Porém, parece que essa geração começa a gritar, embora espaçadamente, que a beleza é de Deus, que tudo que é bom e admirável pertence à esfera da sua criação. Muitos já não concebem um céu onde a única expressão das artes será um grande coro cantando as últimas músicas do “mercado gospel”. Será muito bom quando uma cosmovisão cristã tomar as rédeas das sete artes e, mesmo em discursos indiretos ou subliminares, enxergarmos a beleza e a essência do cristianismo. Poderemos ler poemas, cantar músicas, admirar quadros, assistir peças e dizer: “Por trás disso há um cristão e os pressupostos das sagradas escrituras”. Deus é o Senhor das artes e o criador das habilidades artísticas -- basta ler Êxodo 31.1-5:

Disse então o Senhor a Moisés: ‘Eu escolhi Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal’.

As artes nunca foram um problema em si na relação do homem com o seu Criador. Quem se divorciou de Deus foi o homem e o seu coração tornou-se mau e autossuficiente. Com isso, a expressão criativa que brota de um coração mau tornou-se também anti-Deus. Francis Schaeffer já havia diagnosticado que o divórcio entre a cristandade e a cultura tinha sido uma tragédia na Europa e na América do Norte do século 20. Esse mal avançou para o hemisfério sul e por aqui as artes também se tornaram um monopólio secular. A conservadora separação entre ambiente sagrado e profano pôs as artes para fora da igreja e muitas pessoas foram atrás delas, ou seja, afastaram-se de uma instituição incapaz de dialogar com a cultura. Passou da hora de os cristãos vislumbrarem nas artes o triunfo de Cristo sobre o pecado, tornando-as de novo obras de gente que vê beleza e esperança na vida. Louvado seja o Jesus que volta no caminho para recuperar o que a ele pertence e que displicentemente deixamos ficar para trás.


• André Luiz de A. Freitas
, 26 anos, é jornalista e líder de jovens da Igreja Batista Memorial da Tijuca, no Rio de Janeiro.

24 de mar. de 2010

Teologia e vida na América Latina

Deus é bom e me deu um presente e tanto nesses dias. Desde que fui picado pelo "mosquitinho" da paixão pela teologia eu desejava frequentar os grandes congressos teológicos, que são organizados quase sempre pelas editoras brasileiras. Sempre lia, com uma santa inveja, o material produzido por blogueiros após as plenárias, debates e conversas com a elite do pensamento teológico protestante brasileiro. Em janeiro decidi inscrever-me para o 7º Congresso Brasileiro de Teologia da editora Vida Nova e cá estou eu, em Águas de Lindóia (SP), bem atento ao que os estudiosos têm a dizer nos próximos quatro dias.

Apesar de eu ter vindo por conta própria, minha credencial diz que pertenço e represento a Igreja Batista Memorial da Tijuca (RJ). Tenho muito orgulho de no meio de tanta gente boa, circular carregando o nome da IBMT no peito. Resolvi então compartilhar com vocês através do blog dos jovens o que ando ouvindo por aqui.

Hoje (terça-feira, 23/03) foi o primeiro dia do congresso, que está tratando de vários aspectos da teologia no contexto da  América Latina, e já começou com uma plenária do René Padilla. Trata-se de um importantíssimo teólogo equatoriano, mas que hoje mora na Argentina, e que participou ativamente da elaboração de uma missiologia que atendesse às demandas humanas integralmente; o conceito de Missão Integral. O sujeito tem graduação e mestrado pelo Wheaton College (EUA) e Ph.D. em Novo Testamento pela Universidade de Manchester (Inglaterra). Posteriormente, o Wheaton College lhe outorgou o título de Ph.D em Divindade honoris causa.

RESUMO:
Missão integral é um tema que passei a acompanhar recentemente, portanto, não conheço muito sobre. Achei a proposta altamente pertinente para os Batistas Brasileiros presentes pensarem. Em março a denominação difunde a partir da sua Junta de Missões Mundiais a anual campanha missionária. Saí da plenária pensando no que está correto e no que está errado conosco. Os que vão ler esse resumo estão convidados a pensar em missões comigo, a partr da ideia de missão integral.

Imperialismo e missões - René Padilla começou citando um teólogo russo que certa vez alertou que era preciso enxergar a diferença entre a diginidade do cristianismo e a dignidade dos cristãos. Segundo ele, nem sempre são a mesma coisa, ou caminham na mesma direção. Enquanto o cristianismo nunca perdeu a sua dignidade, os cristãos nem sempre mantiveram feitos dignos e positivos. Foi lembrada a experiência de juntar missões cristãs e colonialismo/imperialismo entre do século XVI até o XIX. Não faltaram teólogos para justificar a conquista dos povos das Américas pelas nações cristãs europeias ou para defender o destino manifesto (doutrina que defendia que os colonizadores tinha a missão divina de expandir os valores cristãos aos ignorantes nativos), a expansão territorial e o extermínio dos nativos na América do Norte. Padilla afirmou que muitas missões cristãs eram feitas com propósitos indignos do cristianismo e que os evangélicos aprovaram guerras expansionistas sob o pretexto de evangelização a qualquer custo.

Conferência Missionária Mundial de Edimburgo - Há exatos 100 anos essa reunião teológica na Europa dividiu o pensamento missiológico evangélico. A mentalidade missionária até então se mostrara arrogante, impaciente, auto-suficiente e triunfalista diante da tarefa de anunciar o evangelho aos povos não-alcançados. Um documento de nove volumes foi produzido a partir do encontro e pretendia carregar todos os "fundamentos da verdade da fé cristã e da obra de evangelização do mundo". Surge então uma definitiva polarização entre os evangélicos: de um lado os FUNDAMENTALISTAS e de outro os MODERNISTAS e os LIBERAIS. Essa divisão foi dramática para a causa do evangelho. Enquanto os modernistas buscavam entender o Reino de Deus e a missão da Igreja no presente, observando os benefícios da cruz já para os tempos atuais, os modernistas ficaram marcados pela radicalidade em interpretar o Reino como um Reino futuro, por manterem uma proclamação do evangelho voltada apenas para a salvação da alma e expansão da igreja e negarem a possibilidade de um Evangelho com preocupações sociais. Padilla lembrou bem que os fundamentalistas estavam fortemente influenciados pela escatologia dispensacionalista (doutrina que enfatiza a redenção apenas a partir da segunda volta de Cristo, nega a restauração da criação já nos nossos tempos e destaca-se pela crença de que as promessas feitas a Israel no passado serão cumpridas no milênio).

O "esquema" tradicional de missões: Para mim, aqui a fala (em puro "portunhol) de René Padilla começou a crescer até o clímax. Segundo ele, há uma "tradição" de missões nas igrejas e dois valores compreendidos pelos seus membros.


  • Na compreensão geral, o chamado para ser um missionário de carreira ou um pastor é louvável e sublime, mas apenas para alguns "eleitos";

  • À igreja local cabe a tarefa de oferecer apoio espiritual (seja lá como isso é feito) e financeiro à missões.
O legado pós-Edimburgo: Nunca antes eu tinha ouvido alguém sistematizar tão bem o que diferentes grupos pensam sobre a teologia de missões. Padilla enumerou quatro dicotomias negativas da divisão do pensamento sobre missões após a conferência de 1910.


  1. As igrejas que enviam missionários X As igrejas que recebem os missionários enviados (missionários saíram do 1º mundo para o 3º sem uma compreensão transcultural e humilde do Evangelho). Apesar das falhas, René Padilla ressaltou que os missionários de carreira foram imigrantes que deixaram tudo pela causa de Jesus.

  2. O Lar (um país cristão) X O Campo Missionário/local de trabalho (um país pagão)

  3. Clero (uma classe de funcionários da Igreja responsáveis pelo trabalho da Igreja) X Leigos (membros comuns) - isso criou, segundo ele, o problema dos cristãos "domingueiros"; sem envolvimento.

  4. Grandes projetos com poucos missionários X Igreja local não é missionária onde ela está
A Missão Integral como mudança de paradigma: listarei a seguir os pontos principais do clímax da plenária; a proposta de missão que integra e desfaz as dicotomias anteriores


  • A Igreja precisa influenciar os lideres que governam a vida política a defender direitos dos pobres;

  • Agências missionárias que não apenas falam de missões, mas que colocam em prática o Reino de Deus através do povo de Deus;

  • O Evangelho é as boas novas do Reino, em Cristo Jesus; boas novas de restauração, libertação e salvação: pessoal, social, global e cósmica;

  • Missões incluem: evangelização, respostas às necessidades humanas imediatas e pressão por transformação da realidade social;

  • Missões não consistem em focar na transposição de barreiras geográficas (isso é secundário). Missões consistem em romper a barreira entre a fé cristã e a não-fé cristã;

  • A igreja local não faz tour religioso, não é um grupo de amigos e nem tampouco uma agência de bem-estar social;

  • Seu propósito é encarnar os valores do Reino para a transformação do mundo;

  • Fazer missões é uma responsabilidade e privilégio de todos os membros da igreja;

  • É dever da igreja local treinar e mobilizar para missões (Ef. 4:11-12);

  • Missões são feitas nas escolas, nos hospitais, nas empresas, nas comunidades carentes... Pois não há um lugar fora da órbita do senhorio de Jesus;

  • Todas as igrejas podem aprender com outras. Não há uma igreja que apenas envia e ensina e outra que só recebe o conhecimento de Deus;

  • Todos os cristãos são missionários. Cada dificuldade humana é uma oportunidade missionária;

  • Cada igreja local precisa mostrar o Reino de Deus no seu próprio lugar (missões também se faz na "sua Jerusalém", e não só "nos confins da terra";

  • Os benefícios da salvação são inseparáveis da obra missionária;

  • A MISSÃO INTEGRAL é uma contraposição à missão imperialista de conquista, e mostra o Reino de amor, de justiça e de glória de Jesus Cristo.